De pé por Adriana Janaína Poeta

     Existem escritores excelentes, e eu sempre li muito. Comecei a escrever aos 9 anos de idade, e com essa idade, já tinha lido Victor Hugo, sem achar a menor dificuldade.
     Em casa, nunca faltavam livros. Era o presente preferido que minha mãe gostava de me dar, e eu de receber. Ela sempre comprava vários, durante a semana, então, eu tinha todos aqueles universos à mão. Cresci assim.
     Não era uma imposição, para mim a leitura era estimulante, como é até hoje. E no meu caso, não houve seleção ou censura alguma, eu lia tudo.
     Acredito que esse processo contribuiu para que eu me tornasse quem sou. Ler expande a nossa visão de mundo, nos torna mais conscientes até mesmo da natureza humana, as coisas boas e as ruins, que infelizmente, existem.
     Acima de tudo, aprendi muito cedo a questionar e a refletir.
     Cada autor traz uma mensagem, é um universo de percepções, emoções, experiências, memórias, e um olhar único para o mundo e a alma humana. Nunca, um autor genuíno, ou seja, quem não tem a menor intenção ou desejo de igualar-se ou imitar qualquer um, por mais destacado e admirado que este outro seja, deixará de trazer para sua obra, além de si mesmo, este olhar único.
     Escrever, desta forma, é ofício sagrado. Não importa que o autor viva no país ou no momento que não reconheça esse detalhe, porque mais adiante, fará toda a diferença.
     Os escritores são, via de regra, os maiores cronistas da sua época. Sempre tive essa convicção, porque , ainda que  algumas pessoas romantizem a profissão, os escritores respiram o mesmo ar  e  estão sujeitos a tudo que os demais estão no planeta. E vemos isso não apenas na literatura, mas nas demais artes. Porque ser escritora, escritor, não nos protegerá do mundo, pelo contrário, muitas vezes nos fará levantar e erguer a voz quando ninguém mais se atrever, e for imprescindível. O verdadeiro autor, não o será impunemente. Porque mora na alma de tudo que está conectado realmente com o mundo, essa urgência e necessidade de não se omitir, de muitas vezes ter que sacudir e acordar quem, de olhos cerrados, está desatento ou acomodado. O futuro é uma esquina de mudanças, de rupturas para tudo o que  já está ultrapassado. Não se trata de rebeldia cega, mas sensata. Não é uma inconsequência tola, mas consciente, equilibrada.
     O mundo sempre foi o que é, esse moinho insano. Essa repetição dos mesmos erros, onde os personagens repetidos trocam apenas de roupas e nomes. E quem chega com alguma sensibilidade mais aguçada, que não representa santidade, mas clareza para enxergar as coisas, leva isso para o seu ofício.
     Não, não é algo fácil, premeditado, e muito menos, confortável. Na grande maioria das vezes, não será. Não raro, o autor vai ponderar:
     - Por que eu não faço como a maioria e cerro os olhos?...Por que  não fico aqui, junto com todos, sentado, braços cruzados, quase cochilando?...
     E sem que perceba, já levantou e fez o que tinha que fazer. Por que? Nenhum deles saberá dizer.
     O certo é que fará. E assim, através da sua obra, da sua conduta, original, poderemos perceber onde estão. O sal da terra, a pimenta no prato, os de pé, nunca sentados...
     Se o mundo se transforma  e melhora, é por causa deles. Porque não se calam, porque não se acomodam, porque imprimem nas vidas e trabalhos, este olhar arguto. Não, não vão colher frutos, e sabem disso.
     Quando aqui já não estiverem, serão lembrados. Com a maioria, sempre aconteceu assim. Mas, a alma é mais forte em quem vem provido de algum talento. É o jarro de bênçãos que vem em par com o vizinho das maldições.
     Mas, quem tiver essa alma mais atenta e vibrante, essa consciência terrível de mundo, não terá escolha. Todas as ruas vão levá-lo até o momento que se verá de pé. E assim deve ser.
(De pé por Adriana Janaína Poeta) 




Comentários

Postagens mais visitadas