O último pensamento de Lorca por Adriana Janaína Poeta/ in Manuscritos

Penso nos poetas,
estes desgarrados do rebanho.
Os estranhos,
desajustados,
desvairados,
acabrunhados,
pensativos,
os proscritos.

Lembro que, muitas vezes,
me senti como eles,
ainda muito menina.
Alma errante,
meio abandonada.
Um arbusto esquisito
em meio as flores normais,
sempre perfeitas.
Mas, o que eu fiz?

Peguei o caminho silencioso,
aquele por onde poucos vão.
E mergulhei dentro de mim,
sem nenhum pudor ou receio
para experimentar o gosto
doce, quente, frio, amargo
que a minha alma tem.
Jamais quis medir sua altura.
Nunca desejei desvendá-la.

E essa menina cristalizou-se,
agarrada a vertente
que, incessantemente, flui.
E fez isso, descalça.
E fez isso, quase sempre,
nua.

Então, ainda com aquele
meio sorriso,
que sempre em mim brota,
ela me conduz,
vida afora, pela mão.
E vem deitar a sua cabeça,
meio ruiva, no meu colo,
e põe a sua mãozinha fria
sobre mim.

Desde que se cristalizou,
eu nasci poeta.
E a poesia, 
como flor de lótus brilhante,
se tornou meu leito,
o meu bálsamo.
Foi assim que eu respirei
aquela liberdade sem preço,
a vida eterna e possível,
minha inspiração
para toda vida.

E me senti Debussy,
sentado ao piano,
amando, mesmo quando não poderia.
E me senti como Lorca,
mal escondendo
a sua alma doce  e suave,
na época fria  e dura em que vivia.

Nunca mais esqueci a primeira sensação:
ser livre infinitamente
de tudo e sobre tudo.
Esse foi, seguramente,
o último pensamento de Lorca. 
(O último pensamento de Lorca por Adriana Janaína Poeta/ in Manuscritos/ Clube de Leitura dos Poetas)
Imagem: Foto by Marcelo Bernardo.

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